quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não Alice...

Depois de choros, gritos e palavras afiadas, ela abriu os olhos.

Não era difícil entender o que se passava na mente de Alice, principalmente porque nos últimos dias ela havia estado naquela que seria uma das mais conturbadas noites de sua vida. Mas agora não era hora de se importar com isso não é mesmo? O sangue Alice, o sangue...


Isso mesmo garota, guarde essa lâmina e apague isso do passado, e não se esqueça de queimar aquele lenço.

Não Alice, desse jeito você vai queimar a casa, faça com cuidado, esqueça essa lata de gasolina e vamos jogar este lenço na lareira. Aliás, porque você não se senta à frente dela?

Não Alice, Sentar na frente dela e não se jogar sob suas chamas. Fique quieta por favor. Eu sei... você quer chorar não é? Não se preocupe, pode falar.

Falar Alice, F-A-L-A-R. Não precisa gritar para que todos do bairro ouçam.

Sim, eu sei, ele é um canalha e fez o que fez justamente pela sua péssima personalidade. Seus amigos não vão julgar ou brigar com você, acredite.

Eu? O que tem eu? É Alice, eu sempre estive aqui... Porque você nunca notou? Talvez porque eu nunca quis que notasse.

Não Alice, eu não quis dizer isso, volte, largue esse caco de vidro! Aliás onde você o arrumou?

Alice, você é uma perturbada sabia? Que ideia foi essa de jogar a garrafa de vinho no chão? Venha, pare de fazer besteira, sente-se e venha contar sua história. Ou melhor, porque não a esquece?

Sim minha menina, esquecer. Porque as vezes é melhor rasgar as folhas de um livro e recomeçar. E veja estas lágrimas, enxugue-as. Eu sei, eu sei, o lenço tá na lareira, mas veja, eu tenho um no bolso.

Você está sorrindo, pelo menos sirvo pra alguma coisa não é? O que tem eu? Não pequena, eu não... Desculpe.

Espere, aonde você vai? Não Alice, saia de perto dessa sacada! Você não é nada disso, santo Cristo! De onde tirou essa ideia? Olha, acredite em mim quando digo que você é a garota mais linda que conheço, você é inteligente, bonita, engraçada, divertida, estudiosa, você é absolutamente incrível! Não, isso não é mentira... Eu nunca falei sério em toda minha vida...


E depois disso foram-se os choros, os gritos ou qualquer palavra afiada, ela chegou mais perto e fechou os olhos. Eles fecharam os olhos e não esperavam mais por um final feliz. Eles o faziam.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O menino, a rosa e os espinhos

Era uma vez um garoto e era uma vez uma rosa. Eram tantas as vezes o garoto e a rosa que um belo dia eles se tornaram um.

Desculpem-me o mal jeito... Vou começar de novo.

Era uma vez um garoto, pequenino dos olhos cinzas, tinha em seu aposento uma pequena porém delicada roseira. Mas a roseira não dava rosas, somente espinhos e isso o entristecia. Todos os dias o pequenino ia lá regá-la com esperança de que um dia ele veria nascer uma bela rosa vermelha... Dias se passaram, meses se passaram, e numa noite de lua cheia, entristecido por não conseguir sua preciosa rosa, o menino chorou.

Suas lagrimas caiam de leve e acabaram por regar a roseira, e em meio a prantos o menino dormiu. A roseira porém atendeu ao seu pedido e transformou suas lágrimas na mais bela rosa vermelha.

No dia seguinte, ao se deparar com tamanha beleza da nova flor que surgia, o menino se fez alegre e cuidou da rosa para que não envelhecesse depressa. E não envelheceu.

Cada vez, mais e mais, o pequeno garoto se perdia em admiração à rosa até que desejou ser tão belo quanto ela. Queria se tornar uma rosa.


O problema meus caros, é que rosas tem espinhos.


E assim que abriu os olhos, eis que surgia um misto de garoto, beleza e espinhos. E como se tornara um menino belo... Mas rosa é uma flor complicada...

No começo todos o amaram, meninas de todos os cantos vinham para lhe cortejar, queriam para si o tão belo menino, mas ao chegarem perto, seus espinhos as machucavam. No começo ele não se importava. Era amado e desejado, e isso bastava.

Dias se passaram

Meses se passaram

E por fim o inverno chegou. E não tardou para que percebesse que não tinha ninguém ao seu lado para aquecê-lo.

E foi assim durante vários invernos...

Até que um dia ele fez uma das maiores insanidades. Cansado dos espinhos ele os cortou, um por um, lenta e dolorosamente. O curioso é que ao cortar os espinhos, lagrimas brotavam.

No final, já livre dos espinhos e contorcendo-se de dor, o garoto fechou os olhos e esperou por aquela que seria sua morte, eis então que surge as mãos de uma bela moça que o colhe e cuidou dele para que não envelhecesse. E não envelheceu.